Agricultura regenerativa e keyline design – bora estudar?

Quem mora em áreas áridas e degradadas sabe que fazer agrofloresta tal qual se faz em zonas com índice de chuva um pouco maior não é tão simples. Em regiões onde não dá cacau, café e cupuaçu, aonde se tem que trabalhar com caju, baru, umbu e cajá, se o solo não tiver um estoque de matéria orgânica, o processo de criar vida sem grande aporte de insumos externos é mais lento e menos produtivo.

São os chamados ambientes savânicos, que se assemelham mais a desertos do que a florestas tropicais: áreas planas dominadas por gramíneas, com algumas árvores. Segundo o criador do planejamento holístico, Allan Savory;

 70% desses ambientes estão gravemente ameaçados, em processo de tornarem-se desertos.
Ambientes savanizados
A minha “savaninha” de quintal: campo sujo de neossolo quartzarênico. Degradada por fogo e pastagens não-controladas.

Nesses ambientes, o manejo das gramíneas é fundamental e não é a toa que em ambientes desérticos, o ser humano precisou desenvolver uma parceria com os animais  para conseguir prover o alimento para sua comunidade. Como diz Bill Mollison,  

“ Veados, coelhos, ovelhas e peixes herbívoros são muito úteis a nós, pois eles convertem ervas inadequadas ao consumo a comida humana aceitável. Animais representam um método válido de estocar vegetação inadequada ao consumo como comida. Se, por outro lado, convertermos toda a vegetação em espécies adequadas, assumiremos uma prioridade humana que é insustentável, e deveremos destruir outras plantas e animais para fazer isso. Grãos e leguminosas como a soja são responsáveis por erosão de solos e não são produzidos em regiões desenvolvidas, ficando para ser cultivados em áreas com reais ameaças de fome, como India, Etiópia, África e fronteiras agrícolas distantes. (…) Dietas primariamente carnívoras tem um lugar válido em ecologias especiais, tais como áreas frias, onde cultivar a terra não pode ser uma base alimentar suficiente; em áreas onde as pessoas dependem do mar; aonde condições difíceis obrigam a confiar nos animais como coletores; e onde animais podem reutilizar produtos que de outra maneira seriam lixo como podas, refugos, vegetação rejeitada ou estragada. (…) Deveríamos sempre fazer nossas contas de energia. Qualquer coisa que comemos, se nós não cultivamos nossa própria comida e se usamos uma privada (mandando nossos dejetos para o mar), nós perdemos os nutrientes essenciais necessários para um ciclo de vida sustentável. (…) Uma dieta responsável não é fácil de atingir, mas as soluções recaem bem perto de casa. Viva ao agricultor de quintal!”

 

E, sim, todos que plantam nessas áreas áridas e “savânicas”, que ocupam mais de 1 terço do planeta, dependem muito de esterco animal. É chato, eu sei, especialmente para uma vegetariana como eu, que acredita no que Ernst Gotsch diz; que as savanas, pradarias e Cerrados degradados são criações humanas, pelo mal uso do fogo (e do pasto).

A roça de toco, prática dos povos tradicionais inspirada nos povos indígenas, é realmente uma técnica que dava certo e aí sim podia-se abrir mão do esterco animal.  As florestas eram predominantes e deixava-se cada área a ser plantada 15 anos descansando. Queimava-se uma área com extensão não maior que um acre e ali, com terra preta, cheia da matéria orgânica dos tocos das árvores, podia-se plantar com fartura.

Mas isso exige observação e estudo da natureza. Como bem me disse o Seu Emir, agricultor tradicional da minha região, “só se pode queimar no primeiro ano. Se a areia preta fica branca, sem matéria orgânica, aí acabou.”

Agricultura regenerativa em neossolo quartzarenico
Resultado dos experimentos em permacultura na “minha savaninha”. A mesma área da foto acima, hoje. Tudo foi feito com mínima importação de insumos. Tarefa quase impossível. Sou prova viva. Precisamos de estratégias melhores para transformar desertos de áreas com pouca chuva em jardins do Éden.

Então, estamos nesse ponto: queimamos florestas, degradamos os pastos e agora esses locais não tem estoque de sementes no solo para se recuperarem sozinhos. Isso é a desertificação.

De modo que a agricultura regenerativa, o manejo holístico das pastagens, despontam como alternativa para fazer verdejar de novo nossos desertos e dar a nós, sertanejos e geraizeiros, o mínimo de produção para alimentar nossas famílias.  E sim, teremos de contar com os animais que pastejam as gramíneas nesse processo, adubando o solo.  Mas também é algo que é preciso saber fazer, do contrário o resultado é mais desertificação e compactação do solo.

Acima do manejo holístico de pastagens, a ferramenta do planejamento holístico serve para todos os tipos de organizações, propriedades e empreendimentos, trazendo importantes contribuições à permacultura e ao design em sustentabilidade.

Planejamento holístico e keyline design?

E essa é boa! Um curso que vai reunir duas coisas interessantíssimas que ainda carecem de aprofundamento pelos permacultores e permacultoras brasileiros.

O keyline design – planejamento em linhas chaves – é uma metodologia de leitura da paisagem desenvolvida pelo geólogo Yeomans que aprofunda o estudo dos terrazos, curvas de nível e canais de infiltração.

Identificando os pontos-chave na paisagem, podemos aprimorar o design em permacultura e umedecer encostas inteiras favorecendo o crescimento de árvores e cultivos.

Eu gravei uma palestra há um ano atrás sobre esse e outros assuntos. Se quiser saber mais, pode assistir!

 

Para finalizar, te convido então para o curso

“Agricultura Regenerativa e Planejamento Holístico”:

Curso Agricultura Regenerativa
Com Planejamento holístico, design permacultural, keyline design e manejo regenerativo

De 1 a 9 de setembro com os temas

1) tomada de decisão holística para a agricultura familiar e empreendedores socioambientais;

2) metodologia do desenho permacultural e

3) Planejamento de Propriedades Rurais com a Linha Chave e a Escala de Permanência.

Mais informações: https://www.facebook.com/events/192353568271484/

2 Comentários


  1. Excelente post, interessante!
    Nunca ouvi falar de Agricultura Regenerativa, mas parece-me ser uma ótima alternativa para o Cerrado brasileiro, onde os biomas diferem dos de Piraí do Norte – BA, onde Ernst Götsch recuperou cerca de 400 ha de terras antes devastadas.
    E aprofunda a leitura da paisagem? Isso é “show de bola”!

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