Segredos ancestrais milenares: saberes e diálogos locais

Eu sei que a gente parece maluco: nós aqui viajando no “velho” enquanto toda a sociedade está nos dizendo que temos de adquirir o “último modelo, mais moderno” ou “pintar seus cabelos brancos e esconder suas rugas”.

Bem, o que quero dizer com isso?

Globalização ou pasteurização? (Todo mundo pastel, todo mundo igual...)
Globalização ou pasteurização? (Todo mundo pastel, todo mundo igual…)

Uma prática comum na permacultura é preferir sempre usar os recursos locais. E por que? Porque quando privilegiamos o que está disponível em nossa região é mais fácil conhecermos e controlarmos os IMPACTOS de nossas ações. Além disso, diminui-se o gasto com transporte e, consequentemente, o uso de petróleo e combustíveis fósseis.

Se antes falávamos em GLOBALIZAÇÃO, no milagre de atravessar mundo(s) para levar recursos e informação, hoje temos também uma outra volta na espiral do tempo, com o resgate das culturas locais e a valorização da diversidade de saberes regionais ancestrais.

Um exemplo

Outro dia, o Roberto, um leitor do Guia, me escreveu querendo saber nossa opinião sobre o uso de areia de praia na bioconstrução. Perfeito do ponto de vista de “usar recursos locais”, só que, como ele explicou, o sal da areia destrói e corrói as paredes. 

Matutei e minha resposta para o Roberto seria a seguinte:

O batizado de Macunaíma, de Tarsila do Amaral.
O batizado de Macunaíma, de Tarsila do Amaral.

Para pensar permaculturalmente nesse caso o que devemos fazer é olhar para o PASSADO e (re)inventar o futuro. Como os povos tradicionais (no caso da praia, os caiçaras, pescadores e indígenas) construíam suas casas?

São eles que darão o exemplo das tecnologias apropriadas àquela realidade local. Certamente, eles sabiam (e sabem) tudo de bioconstrução.  E, provavelmente, o material que escolhiam era dos mais abundantes localmente.

E assim descobrimos que a DIVERSIDADE de saberes é RIQUEZA, que, o que alguns em seus cabrestos associam à pobreza, são apenas modos de viver diferentes, tecnologias milenares, produtos da adaptação e resiliência dos povos.

Sabedoria ancestral inspirando a ciência moderna. Isso é permacultura.

6 Comentários


  1. Olá Marina e demais leitores, nós não temos areia aqui no oeste de Santa Catarina, mas temos bem perto do sítio uma fábrica de pallets. O que isso significa? Significa serragem de madeira não tratada grátis. Nós arriscamos e substituímos a areia por serragem. O local onde há serragem em abundância está a 2 km do sítio e é fácil para nós buscar. Só foi preciso peneirar a serragem antes de usar. A parede ficou leve e bem térmica, mas desconheço fonte teórica sobre essa substituição, e seria ótimo saber se mais pessoas já tentaram a serragem na mistura? Nós não usamos nada de areia, porque aqui sai caro para nós. Agora estamos na fase de inicar o reboco, e o material auxiliar que enviaram essa semana veio bem a calhar. Agradeço pelo compartilhamento de conhecimento, acompanhar o trabalho de vocês é inspirador e ajuda muito nosso dia-a-dia! Abraços a todos envolvidos

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    1. Ei Ana,

      gratidão por trazer sua experiência permacultural! Adorei!

      Nós também estamos usando a serragem dentro nos nossos bricker adobes…É mesmo um material maravilhoso!

      Abraço!

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  2. Mas que coisa mais linda de se ler “E assim descobrimos que a DIVERSIDADE de saberes é RIQUEZA, que, o que alguns em seus cabrestos associam à pobreza, são apenas modos de viver diferentes, tecnologias milenares, produtos da adaptação e resiliência dos povos.” . Oxalá possa um dia vir a conhecer este casal tão especial e oportuno neste planeta.Sororidade.de SC –
    Maravilha – Clenir

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    1. GRatidão Clenir pelo carinho!!

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  3. Estou cada vez mais interessado e animado em conhecer e praticar a permacultura! Moro no litoral norte do Espírito Santo e possuo um pequeno lote onde desejo construir utilizando técnicas de bioconstrução. Meu pai tem conhecimento de construção e acredito que possui habilidades pra me ajudar nessa empreitada. Porém, semelhante ao nosso colega citado acima, Roberto, no local onde está meu lote o terreno é arenoso, não é areia de praia, mas arenoso. No caso, não sei qual a melhor técnica a ser utilizada. Alguém teria uma dica pra nós?
    Sou grato por existir esse movimento, que pelo que estou vendo não encontra muito apoio do governo e por isso não é muito divulgado, mas como li em algum dos sites que pesquiso, talvez nesse aqui mesmo, “quem quer encontra…”… Acredito que quando agente tem o desejo de mudar as coisas, não há nada que impeça….
    Obrigado!
    Grande abraço!!!!

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